Estêvão inicia sua defesa perante o Sinédrio, afirmando que o Deus majestoso e transcendente apareceu a Abraão em Mesopotâmia, antes que este habitasse em Harã, indicando a origem divina e soberana da aliança.
Explicação Histórica
A expressão 'Varões irmãos, e pais, ouvi' constitui um apelo respeitoso e formal à atenção da audiência, composta por membros do Sinédrio. 'O Deus da glória' (ho theos tēs doxēs) é um hebraísmo que enfatiza a majestade, o poder e a presença transcendente de Deus, indicando Sua natureza gloriosa e universal, não limitada por espaço físico. O aparecimento a Abraão 'estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã' (em Ur dos Caldeus, Gn 11:31; 12:1-4) sublinha que a iniciativa divina ocorreu em terra pagã, antes de Abraão chegar à terra prometida ou da instituição da Lei Mosaica, destacando a eleição soberana de Deus.
Interpretação Doutrinária
Este versículo consolida a doutrina da iniciativa divina na salvação, mostrando que Deus, em Sua glória e soberania, toma o primeiro passo para estabelecer uma relação com a humanidade. Ele se revela diretamente, como fez com Abraão, independentemente de rituais ou locais pré-determinados, ilustrando a capacidade de Deus de chamar e guiar os Seus. A manifestação do 'Deus da glória' reitera a crença pentecostal de um Deus que se faz presente e atuante na vida dos fiéis, revelando-se por meio do Espírito Santo.
Aplicação Prática
O cristão deve reconhecer a soberania de Deus em sua própria vida e estar atento ao chamado e à direção divina, mesmo que isso implique deixar zonas de conforto. É um convite a buscar uma relação pessoal e direta com o 'Deus da glória', que se revela e guia Seus servos, e a entender que a presença de Deus não está restrita a edifícios ou tradições humanas, mas atua poderosamente onde Ele deseja.
Precauções de Leitura
É crucial evitar a interpretação isolada deste versículo para desvalorizar a importância do Templo ou da Lei no contexto histórico de Israel. Estêvão não está negando a validade histórica destas instituições, mas sim enfatizando a primazia e a transcendência de Deus, cuja obra precede e supera as construções humanas. Não se deve, também, interpretar o 'Deus da glória' como uma divindade distinta, mas como uma designação descritiva do único Deus verdadeiro.